A minha avó Maria Nazaré era, simplesmente, “a avó”, visto que foi a única que eu conheci efetivamente – a minha avó materna faleceu na adolescência da minha mãe e os dois avôs faleceram até ao meu primeiro ano de vida. Por isso, a avó era a avó. A única avó. Era uma avó como todas as avós: cozinhava bem, rezava muito, via telenovelas, lia revistas, usava muita laca, queixava-se dos joelhos e perguntava-nos pelas namoradas. Mas era, em várias medidas, uma senhora adorável. Mãe do meu pai, nasceu em Seia e emigrou para Moçambique. Casou aos 17 anos, teve 2 filhos e viveu, depois, grande parte da sua vida em Coimbra, na casa que sempre se recusou a abandonar, até mesmo quando já lá não vivia. A minha avó recebia sempre os netos de sorriso no coração e amor no rosto. Dizia “xau” no olá (algo que nós sempre achámos curioso e eu mais tarde hipotetizei que pudesse ser um remanescente de uma antiga forma de cumprimentar, que se manteve, em Itália, com o ciao), ligava todos os dias ao meu pai e fazia um ótimo esparguete à bolonhesa. Às vezes, o meu pai passava-nos o telefone e, sempre que o meu pai nos passava o telefone, a minha avó perguntava por todos os netos. A minha avó tinha um armário onde guardava sempre doces, que o meu irmão Pedro, invariavelmente, desde criança até adulto, ia abrir para comer assim que chegava a sua casa. Quando éramos mais novos, a minha avó vinha connosco de férias para a praia. A minha avó era extremamente católica – não podia ver o pão virado ao contrário e passava as viagens de carro a rezar. Quando íamos embora de sua casa, acenava sempre da sua varanda até que o carro do meu pai desaparecesse de vista – e nós acenávamos de volta. Por esta altura, a minha avó perguntava-me que curso eu ia escolher.
A minha avó queixava-se muito dos ossos. Quando deixou de poder ir à missa, a minha avó via a missa na televisão. Relacionava-se seriamente com as pessoas da televisão – “este jornalista é muito simpático”, “gosto muito do Goucha”, “não acho piada nenhuma a este senhor”. A minha avó adorava ir tomar café com as vizinhas à esquina da sua rua e adorava sobremesas e, se lhe dissessem que não podia comer muito, porque era diabética, ela dizia sempre “só um poucochinho”. No Natal, quando nos juntávamos também com os nossos primos, brincávamos muito com a avó – virávamos o pão ao contrário e o meu primo André gostava de a despentear e assustar. À hora de distribuir os presentes, a minha avó oferecia sempre o mesmo – um envelope fechado a cada um dos netos. Em cada um dos envelopes, estava sempre uma nota de cinco euros que a minha avó dava sempre de lágrima no olho, dizendo “desculpa, é o que tenho”. E aqueles cinco euros valiam tanto. Por esta altura, a minha avó perguntava-me que especialidade eu queria escolher.
O luto da minha avó teve dois lutos. O primeiro tornou o segundo menos duro. A minha avó sofreu do que sofrem todas as avós – caiu e partiu a anca. A minha avó nunca quis sair da casa de Coimbra, onde viveu com o seu marido Orlando. Por isso, quando a minha avó caiu e partiu a anca, não quis sair da casa de Coimbra, onde viveu com o seu marido Orlando. Os seus dois filhos – o meu pai e a minha tia – viviam em Macedo de Cavaleiros e foi para aí que a minha avó veio para ser tratada. Quando saiu do Hospital, foi aí que ela ficou num Lar. Mas a minha avó nunca saiu da casa de Coimbra. À medida que o tempo foi implacavelmente tomando conta dela, a mente da minha avó começou a perder-se. Quando a visitava, ela perguntava a mesma coisa várias vezes. Com o isolamento social imposto pela pandemia de 2020, a mente da minha avó perdeu-se definitivamente. Era muito duro, para mim, visitar a minha avó e não encontrar a minha avó. O seu corpo também envelhecia – a minha avó ficou mais baixa e emagreceu. A minha avó foi internada várias vezes. Entre períodos de estabilidade e lucidez e outros de preocupação, a cada data especial havia uma nuvem na família – “este pode ser o último aniversário da avó”, “este pode ser o último Natal da avó”. Entre muita confusão, sempre se conseguia fazê-la lembrar do seu marido Orlando e da sua casa de Coimbra.
Em novembro de 2023, a minha avó fez anos pela última vez. Em dezembro de 2023, a minha avó celebrou o Natal pela última vez. Talvez ela não soubesse que era Natal. Por essa altura, os seus órgãos adoeciam e empurravam-na para camas de hospital. Lembro-me de a visitar e me revoltar com a inevitabilidade do tempo. Mirava-me o seu olhar frágil, daquela cama de hospital, que tantos outros corpos terá suportado, tantas outras dores e olhares frágeis terá carregado no corrupio de médicos e enfermeiros e auxiliares e visitas consternadas ou alegres ou apreensivas ou esperançosas ou indiferentes e bactérias e vírus e fluídos de gente e vida e o fim dela e tempo, tanto tempo. Que vida, a de uma cama de hospital. Mas aquela não era uma qualquer cama de hospital, aquela era a cama de hospital que abraçava o corpo da minha avó, onde pude jurar que a via confortável. É difícil perceber onde termina um olhar, e quanto mais procuramos parece que mais infinito se torna. E o olhar da minha avó, naquele dia, mais misterioso era. Não sei para onde conduzia a realidade através de redes neuronais incendiadas de um cérebro irremediavelmente doente de tempo (talvez saibamos tanto do que se passa dentro de uma mente velha como de um buraco negro). Por essa altura, a minha avó não sabia quem eu era. Mas eu sabia perfeitamente quem ela era – a avó, é claro.
A minha avó faleceu nesse janeiro. Foi por chamada que eu soube. O funeral foi em Coimbra. Toda a família próxima esteve presente. O meu pai era quem mais sofria. Nunca tinha visto o meu pai sofrer, não desta forma – sempre morre algo profundo em nós quando morre a nossa mãe.
O corpo da minha avó está no cemitério de Coimbra, junto do meu avô Orlando, mas a minha avó continua viva no meu pai e em mim e nos meus irmãos e nos meus primos. A minha avó nunca saiu da casa de Coimbra, onde viveu com o seu marido Orlando.
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